Em uma região remota do deserto de Utah, um dos maiores projetos de data center do mundo tem avançado rapidamente, porém, de forma quase secreta, longe do conhecimento da população local. O empreendimento, promovido pelo investidor e celebridade Kevin O’Leary, conhecido como Mr. Wonderful, traz à tona uma grande controvérsia envolvendo autoridades estaduais, especuladores e moradores da região.
Apostando na dimensão monumental do projeto, O’Leary nomeou a área “Wonder Valley”, reclamando para si a autoria da iniciativa que ocuparia 40 mil acres ao norte do Great Salt Lake, no condado de Box Elder. Apesar do apoio político declarado, a população local tem reagido com indignação à velocidade das decisões e à falta de diálogo, motivando manifestações e ações judiciais.
O projeto Wonder Valley e a corrida pela infraestrutura de IA
O empreendimento prevê a construção do maior data center do mundo, com um complexo alimentado por uma usina a gás de 9 gigawatts, volume energético mais que o dobro do consumo médio de Utah. Segundo O’Leary, a pressa em aprovar a obra se deve a uma competição internacional, principalmente contra a China, no domínio da inteligência artificial e na capacidade de processamento de dados.
O’Leary afirmou em entrevistas na Fox Business que suspeitava de ataques virtuais orquestrados por agentes chineses contra seu projeto, baseando-se em análises de endereços IP de críticos do empreendimento. No entanto, após retratação pública, ele e a emissora enfrentam ações por difamação movidas por organizações e ativistas locais, negando qualquer vínculo com o governo chinês.
População e autoridades locais reagindo à falta de transparência
Apesar da aprovação unânime dos três comissários de Box Elder, o projeto só foi oficialmente apresentado a eles poucas semanas antes da votação. Até então, a maioria só tinha ouvido rumores sem confirmação. Moradores da região, como Tim Munns, relataram surpresa e desconfiança, pois não havia infraestrutura básica no local, como água potável ou eletricidade adequada.
O processo acelerado chamou a atenção pela ausência de audiências públicas e o veto às manifestações durante as reuniões decisórias. Essa forma de condução gerou revolta entre os residentes, que criaram grupos como o Box Elder Accountability Referendum (BEAR) para reunir apoio contra o empreendimento. A mobilização obteve milhares de voluntários para coletar assinaturas visando um referendo local.
Impactos ambientais e sociais nas discussões sobre o data center
A principal fonte de preocupação é o consumo intensivo de água, um recurso escasso na região, especialmente em meio às recorrentes crises de seca. Embora os responsáveis afirmem que o sistema de refrigeração do data center será em circuito fechado e que a usina usará turbinas a ar com consumo mínimo de água, dúvidas sobre a efetividade dessas tecnologias persiste entre especialistas e moradores.
Além da água, a poluição sonora, térmica e visual também estão no centro das críticas. Estudos preliminares indicam que a operação do data center poderia aumentar as temperaturas noturnas locais e impactar a qualidade do ar. Essa complexa situação tem feito moradores de diferentes espectros políticos se unirem contra o projeto, incitando debates sobre governança e democracia participativa.
Pressões políticas, retrocessos e o futuro incerto do projeto
Apoiado inicialmente por líderes como o governador Spencer Cox e o presidente do Senado estadual Stuart Adams, o projeto sofreu reveses após a discordância popular e derrota eleitoral de políticos ligados diretamente à iniciativa. A controvérsia obrigou alguns representantes a recuarem publicamente de seu apoio, enquanto a Military Installation Development Authority (MIDA), órgão facilitador da aprovação, passa por reforma após a saída de seu diretor-executivo.
Até o momento, nenhuma terra foi oficialmente transferida, nenhum inquilino anunciado e o projeto permanece paralisado por conta de litígios judiciais relacionados ao referendo. O’Leary mantém discurso otimista, afirmando que as obras da primeira fase começarão em até 12 meses, embora a comunidade local e especialistas continuem questionando a legitimidade e sustentabilidade do projeto.
Linha do tempo dos principais eventos do data center em Utah
- Outubro-Novembro 2025: O empreendedor imobiliário Austin Pritchett inicia contato com proprietários de terras em Box Elder sobre o projeto, apresentando-o ao ex-deputado Jason Chaffetz, que conecta Pritchett a Kevin O’Leary.
- 8 de janeiro de 2026: A equipe de O’Leary se reúne com o governador Spencer Cox e o presidente do Senado Stuart Adams.
- 17 de fevereiro: Anúncio do campus de data center Wonder Valley em comunicado à imprensa, inicialmente com pouco impacto público.
- Março: Proprietários alertam os comissários locais; a MIDA apresenta o projeto oficialmente aos comissários no final do mês.
- 7 e 22 de abril: Envios de acordos para aprovação e reuniões públicas com poucos detalhes e voto adiado.
- 24 de abril: MIDA aprova a área do projeto antes do consentimento do condado; O’Leary intensifica a retórica contra a China.
- 27 de abril: Reunião tensa e com protestos, voto adiado para 4 de maio.
- 4 de maio: Mais de mil moradores protestam; projeto aprovado em votação fechada sem comentários públicos.
- Maio e junho: Organizações locais tentam referendo, enfrentam rejeição e processo judicial; políticos ligados ao projeto perdem eleições primárias.
- Agosto: Projeto reduzido, parado e afetado por litígios e resistência política crescentes.
O caso em Utah ganha repercussão nacional e configura um exemplo da complexa relação entre inovação tecnológica, especulação imobiliária e a voz dos cidadãos. Para saber de detalhes técnicos ou outros assuntos ligados à tecnologia, a EventiOZ tem várias matérias interessantes, como o lançamento da Huawei com incríveis câmeras para smartphones ou desenvolvimentos recentes em apps de fotografia para iPhone que ampliam as possibilidades dos usuários. Esses avanços contrastam com o cenário turbulento e por vezes conflituoso do avanço das infraestruturas físicas que sustentam a revolução digital.

