Backrooms, filme lançado em maio de 2026, traz para o cinema a atmosfera claustrofóbica e misteriosa criada inicialmente pela série no YouTube, idealizada pelo jovem diretor Kane Parsons. A produção da A24, conhecida por projetos independentes e ousados, investiu cerca de 10 milhões de dólares para transformar essa experiência de horror analógico em um longa-metragem recheado de cenários vazios e sentimentos de isolamento. A obra tenta capturar o medo e a ansiedade dos espaços liminares – aqueles locais entre o real e o desconhecido, intensificados pela sensação coletiva trazida pela pandemia de COVID-19.
Dirigido por Parsons, que aprendeu 3D e criação de efeitos visuais sozinho ainda na adolescência, o filme evolui a partir das quase duas dezenas de episódios da série online, os quais deixavam muitas dúvidas e poucas respostas. Em Backrooms, o espectador enfrenta uma jornada carregada de tensão, na qual o silêncio e a imensidão dos ambientes têm mais peso do que cenas explícitas de violência. A trama tem como pontos centrais o proprietário de uma loja de móveis com temática pirata, Clark, e sua terapeuta, Mary, que tentam lidar com traumas profundos em meio a um universo surreal e ameaçador.
De fotos de 2019 a um filme de longa-metragem
O conceito de Backrooms nasceu em 2019 com uma imagem de 4chan mostrando um escritório abandonado, com luzes fluorescentes e papel de parede amarelado. Essa cena, inicialmente simples, ganhou força durante o isolamento imposto pela pandemia, quando locais esquecidos e vazios começaram a remeter à sensação de desconexão emocional e medo do desconhecido.
Kane Parsons, aos 16 anos, criou a popular série no YouTube explorando esses espaços liminares envoltos em mistério. O sucesso chamou a atenção da indústria cinematográfica, e a A24 decidiu investir no projeto, escolhendo atores renomados como Chiwetel Ejiofor para levar a história principal às telas. A transposição do formato para o cinema, porém, evidencia tanto os pontos fortes quanto as limitações dessa narrativa intencionalmente vaga e atmosférica.
Clima de tensão e o desafio da narrativa
Backrooms é um filme focado no ambiente e na sensação de mistério, mais do que em uma trama tradicional com respostas claras. Para quem se incomoda com cenas em que personagens caminham lentamente em corredores vazios, a experiência pode ser frustrante. Mas essa escolha vem do desejo de Parsons de provocar angústia por meio da incerteza, explorando o medo gerado pelas imagens de espaços vazios e infinitos.
A construção da história, assinada pelo roteirista Will Soodik, tenta entrar no campo da psicanálise, mostrando Clark lidando com traumas pessoais e sua obsessão pela exploração do Backrooms, um espaço quase que metafórico. Apesar disso, o roteiro pende para o excessivamente enigmático, tornando difícil para o público que não conhece a mitologia da série original compreender exatamente o que está acontecendo.
Atuações e design de produção
O elenco traz nomes sólidos, com Chiwetel Ejiofor entregando uma atuação intensa e contida, expressando o medo e a desconexão de Clark sem exageros. Renate Reinsve interpreta a terapeuta Mary, que também luta contra seus próprios fantasmas, e ambos estabelecem diálogos profundos que servem de base para as camadas psicológicas do filme.
O design de produção é um dos trunfos do longa. Com ambientes que parecem se repetir e ao mesmo tempo variar — portas com múltiplas maçanetas, itens parcialmente embutidos em paredes e sinalizações peculiares — a atmosfera é desconcertante. A fotografia destaca-se pelo uso do amarelo saturado, reforçando a sensação de um espaço artificial e inquietante. A trilha sonora, criada em parceria com o compositor Edo Van Breemen, potencializa o suspense com sons que se infiltram na mente do espectador, reforçando a sensação de claustrofobia e tensão contínua.
Backrooms e o público do cinema contemporâneo
Backrooms parece falar principalmente com os fãs da série digital original e aqueles que já estão familiarizados com o conceito dos espaços liminais. Para essa audiência, o filme pode provocar um desconforto encantador, ao mesmo tempo que protege um universo cujo charme está justamente nas suas dúvidas não resolvidas.
Por outro lado, espectadores que preferem narrativas mais lineares poderão se sentir distantes da experiência. A escolha por priorizar o tom e a ambientação em detrimento de explicações claras restringe o apelo da produção. A decisão da A24 em apostar em um diretor tão jovem e inovador como Parsons, que já é destaque entre cineastas que começaram no YouTube, mostra a vontade da indústria em atrair um público mais conectado à cultura digital, o que pode desagradar a quem cresceu com filmes de horror mais tradicionais.
Vale a pena assistir ao Backrooms?
Backrooms não é um filme para todos. A obra da A24 traz um terror atmosférico e desconcertante, que funciona para quem aprecia uma experiência imersiva e aberta a interpretações. Já o público que busca respostas ou uma narrativa estruturada pode acabar se frustrando. Apesar disso, o mérito da produção está em seu visual e construção sonora, que conseguem criar uma atmosfera única, além de ter no elenco atuações que seguram bem o espectador.
No catálogo do cinema contemporâneo, é um título recomendado para quem busca algo diferente dentro do gênero terror e se interessa pelas sensações provocadas pelos espaços liminais, conceito ampliado pelo cenário da pandemia. Para quem gosta de filmes com outros estilos, como o surpreendente thriller de ação “The Furious” que estreou com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, pode ser interessante diversificar o repertório e conhecer essa proposta experimental.

