A rápida expansão da inteligência artificial (IA) coloca em evidência o papel das GPUs (unidades de processamento gráfico) na computação moderna, mas também acende um debate sobre o impacto ambiental causado por esses equipamentos. Os data centers que hospedam milhares de GPUs consomem enormes quantidades de energia e água, enquanto sua produção provoca poluição e resíduos tóxicos.
Nos Estados Unidos, país com o maior número de data centers do mundo, a chegada dessas usinas digitais afeta comunidades locais que enfrentam aumentos em contas de energia, problemas de poluição e desigualdade ambiental. Enquanto os avanços na IA prometem benefícios como melhor previsão do clima e conservação da vida selvagem, o custo ambiental desses progressos ainda é motivo de preocupação para pesquisadores e ativistas.
GPUs em foco: evolução e impacto do consumo
Desde o lançamento da primeira GPU comercial em 1999, a tecnologia evoluiu substancialmente, com empresas como Nvidia liderando o mercado. As unidades não suportam apenas jogos, mas também aplicações complexas de IA, carros conectados e smartphones. Essa generalização tem aumentado a demanda energética dos equipamentos, principalmente em data centers.
Além do alto consumo de eletricidade, a fabricação das GPUs envolve mineração de metais como cobre, silício e níquel, com riscos ambientais sérios, como contaminação de água e exposição a químicos tóxicos para os trabalhadores. A quantidade de água usada para resfriar os servidores é outro ponto: apenas em 2025, estima-se que data centers tiveram um consumo entre 312,5 e 764,6 bilhões de litros de água, equivalente ao consumo mundial anual em garrafas plásticas.
Desafios locais e ambientais nos Estados Unidos
Nos EUA, a construção acelerada de data centers tem levado comunidades a lidar com efeitos como poluição do ar, contas de energia mais altas e pressão sobre sistemas locais de água. Áreas de baixa renda e comunidades de cor são particularmente vulneráveis, enfrentando desafios históricos relacionados à instalação de fontes poluentes em seus bairros.
A NAACP chegou a processar a empresa SpaceXAI por poluição atmosférica causada por geradores a gás usados em seus data centers. Esse cenário evidencia a desigualdade ambiental que acompanha a expansão da infraestrutura para IA e mostra como a comunidade pode ser impactada diretamente sem ver os benefícios prometidos pela tecnologia.
Consumo de energia e emissões: IA superando outros setores
Pesquisas recentes indicam que servidores para inteligência artificial já consomem mais energia do que setores tradicionais impulsionados por GPUs, como o mercado de games. Nos Estados Unidos, o consumo anual de eletricidade dos data centers para IA saltou de 2TWh em 2017 para mais de 40TWh em 2023, e pode chegar a até 326TWh em 2028, volume equivalente ao gasto de mais de 8,7 milhões de residências.
Além disso, o treinamento de modelos como o Llama 3.1 da Meta gera poluição atmosférica equivalente a 10 mil viagens de carro entre Nova York e Los Angeles. A poluição gerada está associada a custos de saúde pública estimados em até 20 bilhões de dólares até 2028, ocasionando milhares de mortes prematuras vinculadas a problemas respiratórios.
Fabricar e descartar GPUs: problemas do início ao fim
Pesquisadores analisam detalhadamente a composição das GPUs para entender seu impacto ambiental desde a fabricação até o descarte. Um modelo Nvidia A100, por exemplo, é composto principalmente por cobre, silício e metais pesados, cuja extração e processamento causam poluição e riscos à saúde pública, com destaque para a poluição causada por produtos ácidos nas minas.
O descarte inadequado gera toneladas de e-lixo, com servidores altamente sofisticados contendo materiais valiosos, como ouro e platina, mas também substâncias tóxicas, como chumbo e cromo carcinogênico. Segundo estudos, o volume de resíduos eletrônicos gerado por servidores AI poderia atingir entre 130 mil e 225 mil toneladas anuais até 2030, comparável ao e-lixo total produzido por países como Dinamarca ou Áustria.
Vale a pena o custo ambiental da inteligência artificial e das GPUs?
O desafio está em equilibrar os benefícios gerados pela inteligência artificial diante do alto consumo de energia, uso intensivo de recursos hídricos e o impacto ambiental da produção e descarte das GPUs. Pesquisadores defendem que a indústria tecnológica precisa adotar práticas mais sustentáveis, como prolongar a vida útil dos equipamentos e desenvolver designs energeticamente eficientes.
No entanto, o crescimento acelerado do setor e a mentalidade de “maior é melhor” dificultam reduzir esse impacto. Consumidores, comunidades locais e ativistas clamam por maior transparência e responsabilidade corporativa para que os custos ambientais não recaiam sobre os mais vulneráveis.
A crescente popularidade de produtos tecnológicos, seja em PCs para jogos, smartphones ou data centers de IA, permanece ligada à capacidade dos usuários identificarem valor real nos dispositivos. Isso está diretamente relacionado à forma como a indústria aborda a questão da sustentabilidade e como as comunidades impactadas podem participar da conversa.
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