Nos Estados Unidos, a expansão de grandes data centers em regiões rurais tem chamado a atenção por seu impacto econômico controverso. Embora esses projetos sejam vendidos como fonte de empregos e desenvolvimento local, análises indicam que as oportunidades fixas geradas são muito limitadas. Essa situação levanta dúvidas sobre os reais benefícios que essas instalações industriais trazem para as comunidades do interior.
Um exemplo emblemático é a cidade de Jay, no estado de Maine, onde uma antiga fábrica de papel fechou após um acidente em 2020. O local, agora transformado em possível centro de dados, mostra como a indústria tenta se estabelecer em áreas de menor densidade populacional, aproveitando vantagens como o clima e incentivos fiscais, mas sem corresponder às expectativas de geração de emprego e crescimento local.
Projeto em Maine revive debate sobre data centers e empregos
O fechamento da fábrica Androscoggin em Jay, Maine, deixou cerca de 1.500 pessoas desempregadas. Em 2023, o prédio de quase 130 mil metros quadrados foi adquirido pela JGT2 Redevelopment e outras empresas, com o objetivo de converter o espaço em data center.
O desenvolvimento, liderado por Tony McDonald, desmantelou as máquinas e limpou o terreno para venda. A negociação foi concluída em 2026, apontando Jay como mais um palco da expansão dos data centers em áreas rurais nos EUA. A escolha por Maine se deve às suas temperaturas amenas, legislação permissiva e matriz energética composta por 54% de fontes renováveis, um dos índices mais altos do país.
Legislação local e veto do governador em meio a controvérsias
Diante do aumento de projetos no estado, a Assembleia Legislativa aprovou uma moratória de 18 meses para suspender autorizações para data centers que consumam mais de 20 megawatts. O objetivo era avaliar os impactos econômicos, ambientais e na rede elétrica.
No entanto, a governadora Janet Mills vetou a medida, justificando que o investimento de US$ 550 milhões no antigo moinho poderia gerar entre 125 e 150 empregos bem remunerados, algo muito necessário para a população local, especialmente após o fechamento da fábrica.
Empregos prometidos versus realidade econômica
Apesar das promessas, estudos recentes indicam que a criação de empregos permanentes em data centers é mínima. Pesquisa do economista Michael Hicks, da Ball State University, analisou a abertura desses centros em 254 condados do Texas e constatou que o saldo líquido de vagas é próximo de zero.
Segundo ele, os empregos temporários gerados durante a construção não se traduzem em contratações estáveis e os postos permanentes muitas vezes substituem outras vagas na economia local. O professor aponta que o que se vê são trabalhadores temporários e a ausência de um impulso significativo para o crescimento do emprego.
Desafios para municípios rurais na negociação com grandes empresas
Pequenas cidades enfrentam dificuldades para negociar termos vantajosos com desenvolvedores de data centers. Segundo Anthony Elmo, do Good Jobs First, muitas vezes esses municípios não possuem conhecimento técnico ou poder de barganha para garantir benefícios reais para suas economias.
Além disso, os incentivos fiscais concedidos frequentemente geram pouca compensação em empregos, como ilustram casos nacionais nos quais empresas receberam milhões em subsídios para poucas vagas criadas. Por exemplo, na cidade de Quincy, Washington, um data center empregou cerca de 500 trabalhadores durante a construção, mas atualmente mantém apenas 50 funcionários fixos.
O que as comunidades rurais podem esperar dos data centers
Em termos de geração de emprego, os data centers, especialmente projetos como o de Jay, são atuantes em um espectro limitado, com cerca de 30 a 50 trabalhadores fixos, incluindo funções de manutenção, operação técnica e suporte. Apenas uma fração dessas vagas envolve cargos altamente especializados.
Apesar disso, especialistas afirmam que o principal benefício para essas comunidades pode ser fiscal. Um centro avaliado em US$ 550 milhões representa um valor tributário muito alto para municípios pequenos, o que poderia impulsionar investimentos em infraestrutura, educação e serviços públicos. Contudo, a concessão de incentivos fiscais tem potencial para reduzir esses ganhos, como ocorre em muitos locais.
Também é importante destacar que os data centers são construídos para reduzir a necessidade de mão de obra humana, principalmente com a automação e inteligência artificial, tornando o argumento da oferta massiva de empregos insustentável diante da tecnologia envolvida.
No cenário atual, o desafio está em equilibrar a atração de investimentos e o aproveitamento fiscal sem criar falsas expectativas de um boom de empregos, especialmente em regiões rurais que já enfrentam dificuldades econômicas e demográficas.
No EventiOZ, continuaremos acompanhando esse movimento que envolve tecnologia, economia e o futuro das zonas rurais americanas.
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